sábado, 23 de julho de 2011

Sinto muito, mas estou te deixando


Ele nem acabou de descer a escada, se sentou ali mesmo em um dos degraus da escada da casa de dois andares idêntica as demais casas do bairro. Apoiou os cotovelos nos joelhos dobrados, passou as mãos pelo cabelo, parou com os dedos entrelaçados no pescoço. Respirou fundo jogando a cabeça para trás e soltando o ar que prendia nos pulmões, por fim deixou os braços caírem ao lado do corpo. Tinha que se entregar a realidade, ela não estava em lugar algum da casa e nem suas coisas no armário. Recolheu o papel amassado do ultimo degrau. Quando foi que o soltou? Não importava. Leu novamente a carta que ela deixou. A letra dela nunca foi uma maravilha para ler, mas ele sempre gostou, era charmosa como tudo mais nela. De novo lia a carta, desta vez com mais atenção, afinal nas duas, talvez, três primeiras vezes que leu perdia o foco já com a primeira frase “sinto muito, mas estou te deixando”.
O que mais o incomodava quando lia, era sentir que aquilo já era esperado da parte dela e ele sabia, mesmo antes de tentarem avisá-lo, mas ignorou. Ignorou o egoísmo dela disfarçado na rebeldia, ignorou que apesar do jeito divertido de garota que quer mudar o mundo, ela ainda tinha a visão de uma menina que foi mimada a vida todo e ganhou tudo na mão pela mamãe, que neste momento devia estar a acolhendo em casa e apoiando a decisão de abandoná-lo. A mãe dela nunca gostou do garoto classe média baixa, que queria ser advogado. A previsão da sogra se concretizou como uma maldição, ela não agüentou a vida de subúrbio com dinheiro em falta e responsabilidades de sobra.
Terminou de ler a carta, mais uma vez olhou para os degraus atrás de si. Não tinha mais o que fazer para comprovar que ela não estava mais lá, então esperou. Esperou seu peito doer, as lágrimas que estavam em seus olhos caírem, mas nada disso acontecia. Sentia-se mal, um idiota, triste, acabado, como se tivesse sido atropelado por um caminhão dirigido por ela. Porém, mesmo com os olhos marejados não descia uma única lágrima por ela. Surpreendeu-se com a própria reação, ou era força? Insensibilidade talvez. De qualquer jeito não pode evitar um meio sorriso tristonho no canto dos lábios.
 Levantou-se, tirou a aliança e a colocou junto à carta na mesinha de madeira a sua frente. Ao lado da escada pegou o carrinho de bebê tirou da passagem colocando em um canto. Foi à cozinha pegou uma cerveja na geladeira, enquanto a abria fazia o caminho de volta para escada subindo até o primeiro quarto à direita. Escorou no portal da porta, que antes estava semi-aberta. Ficou ali bebendo a cerveja e encarando o bebê de um ano e meio que dormia profundamente sem imaginar o que acabava de acontecer. Ele pensava no tempo que ia demorar para ela voltar com a mãe querendo levar a filha embora. Elas não iam conseguir, não iam tirar dele a filha. Só o restava a filha. Podia não estar tão abalado e arrasado como esperava, mas, ainda precisava de algo para orientá-lo, uma luz para motivá-lo, algo por qual viver. E tudo isto, para ele, estava naquela pequenina que dormia de forma angelical.

Criei está história por criar em uma noite de insônia e a versão em papel está muito mal escrita e com bem menos linhas. Talvez um dia a poste aqui, mas não prometo nada.
 Apesar de ter sido criada por acidente me identifico com pequenos detalhes desta história. Tem um pouco de mim nos dois personagens dela, mesmo que me doa admitir. Postarei contando mais sobre isto, e  é uma promessa. É algo complicado de explicar com tão poucas palavras, e algo sobre o qual quero conversar.


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